Bom...
antes de mais deixem-me começar pelo início...
Sou
uma amante de golfinhos que o amigo Corvo conheceu há uns anos em outras ondas
cibernéticas. Recentemente, numa troca de conversas, este amigo lembrou-se de
um pedido muito especial... e se eu escrevesse no seu blog o que significavam
para mim estes animais tão simpáticos que são os golfinhos? Bom... não tinha
como recusar um pedido destes de uma pessoa como o Corvo... e foi assim que
começou a minha pequena viagem no mundo da escrita... não ambiciono muito... às
vezes já é bom que me faça entender (as palavras na minha cabeça, por vezes,
encontram o caos e saem pela caneta de modo desastroso)... sou apenas alguém
que, a pedido de um amigo, quer partilhar com ele, e consequentemente, com
todos os seus amigos, o que me chama para além das ondas... há quem me conheça
por wavegirl... acho que o amigo Corvo acabou por me baptizar por amiga
Golfinho.
Posso
começar por dizer que não... não foi o filme do Flipper que me fez despertar
para o mundo dos golfinhos... vi esse filme com o mesmo entusiasmo que qualquer
pessoa vê um filme cuja temática a atrai... mas assim que acabaram as duas
horas daquela realidade de barbatanas, o meu entusiasmo voltou-se para qualquer outra
coisa na altura... Mas confesso... sou culpada... existe um filme sim. O filme
que me fez começar a minha “carreira” na área de mamíferos marinhos foi o, tão
igualmente conhecido, Free Willy. A história de uma orca que é levada para
cativeiro e depois é libertada. Uma história interessante mas, mais uma vez, não...
não foi isso que me despertou... o que me chamou a atenção foi o animal em
si... o peso bruto de 6 toneladas... o olhar... a maneira elegante com que se
movia na piscina... sim... eu apaixonei-me pelo animal no momento em que o
vi... acho que na altura nem sabia exactamente para o que estava a olhar... a
partir daí fiquei “obcecada” por orcas ... ah... eu tinha 8 anos.
Portanto...
a minha escolha de carreira estava feita e o curso eleito: biologia. Os meus pais acharam a minha ideia determinada muito
precoce e sempre pensaram que era mais uma que ficaria perdida algures durante
o crescimento (quem não quis ser astronauta... ou patinadora no gelo...). Hoje
sou bióloga e não... não trabalho com orcas... mas trabalho com golfinhos.
É
claro que, sendo a orca da família dos golfinhos, facilmente partilho a
fascinação. São animais incríveis... não porque estão sempre a rir (porque não
estão!) ou por causa de um outro cliché qualquer... simplesmente porque o são
mesmo! Cada animal tem o seu ponto fascinante. Quem tem gatos (eu incluída) irá
dizer que também são incríveis. Sim, são! Ninguém aqui vai dizer que os
golfinhos são mais ou menos especiais do que qualquer outro animal... A
intenção é não usar clichés, lembram-se? Sendo assim, porquê dedicar a minha
investigação a estes animais? Porque eles têm mecanismos incríveis que a
maioria dos outros mamíferos não tem!
Só para me fazer entender, alguns exemplos:
Só para me fazer entender, alguns exemplos:
Quantos
de nós sabem que os golfinhos descansam com metade do cérebro de cada vez? Pois
é... enquanto um hemisfério está em repouso, o outro continua em alerta de modo
a processar todas as alterações que ocorrem no ambiente... é uma maneira de
“manter um olho” nas crias e no restante grupo... e claro... nos predadores e
no perigo em geral!
Quem
mais sabe que estes animais respiram de forma voluntária? O ser humano pode
adormecer a qualquer momento que continua a fazer a sua respiração de modo natural
devido a mecanismos internos que fazem com que a respiração seja
involuntária. No caso dos golfinhos, eles têm que estar conscientes para
fazerem trabalhar o músculo que irá permitir a entrada de ar pelo espiráculo (o
“nariz” do golfinho que se encontra no topo da cabeça).
Isto
são apenas dois exemplos... Eu poderia continuar o resto dos tempos a falar dos
aspectos fisiológicos destes animais que mais me fascinam... são assim tantos!
Mas talvez fique para uma outra oportunidade... para uma outra promessa, quem
sabe...
O
mais importante é que estes animais, para mim, representam não só o meu
trabalho, mas a minha vida... não me vejo a trabalhar com qualquer outra coisa
que não investigação e não me vejo a investigar qualquer outro animal que não
seja mamífero marinho... são as únicas opções
que me fazem sentido.
Tive,
claro está, muita sorte! Comecei a minha carreira científica a trabalhar com
golfinhos e já lá vão quase 7 anos... Ao longo do meu caminho sempre me deparei
com as pessoas certas, no momento certo. Conquistei o que tenho hoje com muito
trabalho, dedicação e esforço... o caminho para os nossos sonhos nem sempre é o
que parece mais óbvio e não é, seguramente, o mais fácil.
A
parte engraçada de eu trabalhar com golfinhos é que nunca perdi aquele
entusiasmo... cativeiro ou no meio natural, volto, brevemente ao passado… sempre que é avistado um golfinho o
tempo pára... o coração acelera... e lembro-me do momento em que estes animais
conquistaram o meu coração... por uns segundos a criança apaixonada por
cetáceos regressa e o entusiasmo vence! Se estiver no meio natural darei, com
toda a certeza, o grito de alerta misturado com emoção como se fosse a primeira
vez que os vejo... “Golfinhos!”... se for em cativeiro, sinto aquele formigueiro
que vem dos dedos dos pés, passa pelo estômago e vai até às pontas dos cabelos,
o coração a palpitar e a sensação maravilhosa de estar junto daqueles animais
novamente... após alguns instantes, tanto no meio natural como em cativeiro, a
emoção volta de novo para dentro do coração e é a vez do cérebro entrar
em acção... da profissional entrar em cena... e assim, pego no material, nos
registos, nas câmaras e preparo tudo para mais um dia de recolha de dados!
wavegirl





