Muito se fala nesta altura sobre o
Natal. Criticamos o espírito consumista que a festividade trás consigo,
pregamos sobre o amor e a amizade, e fazemos a lista de afazeres até à
noite da Consoada. Acredito que se perguntarmos a várias pessoas qual o
verdadeiro significado do Natal, encontraríamos respostas bem
diferentes. Mas também acho que o Natal é para a pequenada e, quando não
há crianças por perto, perde um pouco a sua magia. Não quero estar a
reforçar a veia consumista do Natal, mas acredito que não haja alegria
maior para um pai que ver a felicidade do filho na hora de abrir os
presentes. Pelo menos no meu tempo era assim, hoje em dia já não
concordo tanto. Mas não queria que este texto enveredasse por esse
caminho, que é um tanto atribulado.
O
que eu queria mesmo era falar-vos um pouco daquilo que guardo da minha
infância, no Natal. Mais do que uma altura para receber presentes, era a
altura em que a minha tia vinha passar uns dias connosco. Só por isto,
já valia a pena ser Natal. Recordo-me que a noite da Consoada era sempre
em casa da minha avó materna. A casa, como tantas outras em Castelo de
Vide, não era muito grande, mas era acolhedora. Assim que passávamos a
porta de entrada surgiam as escadas que levavam ao primeiro andar, onde
era o quarto dos meus avós e uma sala onde o meu avô tinha os seus
discos e livros. Seguindo as escadas, em direcção ao segundo andar,
entrávamos na cozinha e ao lado estava a sala de estar. Lembro-me
perfeitamente destas duas divisões. O fogão por baixo da chaminé, os
alguidares que serviam de lava-loiça, alguns tachos pendurados na
parede... Vai-se lá entender as decorações de antigamente, mas a verdade
é que só de recordar isto, me dá vontade de lá voltar e ir ver o que a
minha avó está a fazer ao pé do fogão. Também me lembro perfeitamente
dela, sempre com um xaile de malha castanha aos ombros, debruçada sobre a
panela a provar a sopa. Canja, certamente, com umas massas redondas que
eu não gostava nada, mas de que ainda sei o sabor. Onde já se viu canja
sem massa de letrinhas?
A
noite da consoada era passada por aqui. A avó fazia o bacalhau com
couves, batata e cenoura. Sempre com pouco sal, por causa dos diabetes
do avô. Para sobremesa havia arroz doce, que eu deixei de provar quando
estava quente, quando percebi que isso faz muito mal à barriga. E a avó
bem me avisava, mas lá me deixava sempre comer um bocadinho. Não me
lembro muito mais sobre o que se comia nesta noite, que de certeza não
seria só isto, mas é o que me vem à cabeça. Sei que muitas vezes torcia o
nariz às couves e ao bacalhau. Sempre achei estranho que numa noite tão
especial se comesse um prato tão sem graça. Claro que me obrigavam a
comer, afinal de contas eu tinha apenas uns 5 ou 6 anos, mas lembro-me
de um ano que a minha avó fritou rissóis de propósito para mim. Sim,
também não era nada de especial, mas os rissóis da minha avó eram
deliciosos, e feitos em especial para mim.

Na casa da minha avó não havia
aquecedores, havia uma braseira dentro da mesa onde jantávamos. E como
uma braseira e uma miúda de 5 ou 6 anos pode ser um bocadinho perigoso, a
minha avó andava sempre de olho nas duas. A porta da cozinha (que ainda
me lembro ser azul) era sempre fechada para conservar o quentinho.
Depois de jantar, o meu pai e o meu tio iam beber café à vila e os
restantes ficavam por casa. Conversava-se, por incrível que isso possa
parecer. A minha avó era muito poupada quanto ao uso da televisão e nem
me recordo se a ligavam sequer. Sei que enquanto estivéssemos a jantar,
não havia televisão para ninguém. Era a altura ideal para saber
novidades uns dos outros, em especial dos tios que vinham de longe para
aquela noite. O meu avô lá ia brincando comigo, quanto mais não fosse
dizendo umas palermices. E eu lá ia brincando com alguma coisa, fosse
com algum livro de colorir ou algumas Barbies que levava comigo.
Não
esperávamos até à meia noite para abrir os presentes. Em primeiro lugar
porque eu não cabia em mim de excitação e depois porque os meus avós
gostavam de dormir cedo e os meus tios também estavam cansados da
viagem. Por volta das 22h horas, o meu pai e o meu tio voltavam da rua e
fechavam cuidadosamente a porta da cozinha para não deixar sair o
quentinho da sala. Sentavam-se um pouco ao pé de nós e empatavam com
mais um pouco de conversa. Quando finalmente se decidia que era hora de
abrir os presentes, deixavam-me ir abrir a porta da cozinha. Toda a
gente sabe que o Pai Natal deixa as prendas debaixo da chaminé, e no
momento em que eu abria aquela porta azul, caía-me tudo aos pés. La
estavam elas, bem compostas debaixo da chaminé, com papéis de embrulho
lindos e laços bem grandes. E eram sempre tantas! A minha avó metia as
mãos à cabeça, com medo que eu me sentisse mal com tanto entusiasmo. Já
ouvi dizer que chegava a ralhar aos meus pais por me darem um choque tão
grande.
Claro
que, na altura, tinha mais em que pensar do que propriamente nos meus
pais, mas hoje que olho para trás posso imaginar a sua alegria por me
verem tão feliz naquelas noites. E não me tomem por uma menina mimada,
que os presentes não eram só para mim! A pilha que estava sempre debaixo
da chaminé, tinha os presentes da família toda. Até os que tinham
ficado debaixo da nossa árvore de Natal, em casa, e que apareciam ali
como que por milagre. Cabia-me a mim a tarefa de ir buscar os presentes e
distribuir pelos respectivos donos e só depois de estarem todos
entregues, começávamos a abrir.
Durante
anos estas noites foram um mistério para mim. Eu acreditava no Pai
Natal, como na altura era normal (hoje em dia nem tanto...), e todos os
anos escrevia uma carta com a lengalenga de me ter portado bem, ou pelo
menos assim assim, e uma lista com o que gostava de receber. Era lista,
não por querer receber aquilo tudo, mas para o Pai Natal poder escolher
o que me oferecer. Era uma ingénua, eu sei. A lista ficava pendurada na
porta do frigorífico e um dia desaparecia misteriosamente. Se o Pai
Natal não existisse, como era possível que os presentes surgissem
debaixo da chaminé da minha avó?
Só
anos mais tarde dei por mim a pensar no assunto e a desvendar o
mistério. Claramente, o meu pai e o meu tio aproveitavam a desculpa do
café para deixarem os presentes todos na chaminé. A conversa que se
gerava na sala, seria suficiente para abafar os barulhos que eles
fizessem ao subir e descer as escadas. Nunca esclareci este facto, mas
acredito que muitos dos presentes estivessem guardados já no quarto dos
meus avós e que naquela noite voltassem à minha casa apenas para ir
buscar as prendas que ficaram na árvore, horas antes.
Como
disse há pouco, o Natal é das crianças e acredito que ver o sorriso na
cara dos filhos ao abrir os presentes seja o suficiente para aquecer o
coração de um pai. E de certeza que os meus pais sentiam isso, mas que o
momento em que a porta azul se abria e eu ficava especada a olhar para
aquelas prendas, devia ser inestimável para a minha família.
Bons
tempos, sem dúvida, que recordo hoje com muito carinho. Quando for
grande também quero ter uma chaminé para poder passar esta pequena magia
aos meus filhos. Um dia...