Sinopse (copiada do Goodreads):
Uma das obras-primas da literatura mundial, vencedora do
Prémio Strega, que originou um filme de culto.
Giovanni Drogo, recém-nomeado oficial, aproxima-se do seu destino, a fortaleza
Bastiani, com um indefinível pressentimento de que algo na sua vida o conduz a
uma total solidão. A fortaleza, enorme, amarela, situada nos limites do
deserto, outrora reino dos míticos Tártaros, acolhe-o na sua misteriosa
imponência. Dentro desta, o tenente Drogo é contaminado pelo clima heroico de
avidez de glória que parece petrificar, numa espera perene, oficiais e
soldados. Aguardando todos o dia em que os inimigos virão do Norte...
Opinião:
A primeira vez que soube que O deserto dos Tártaros existia
foi numa livraria quando peguei noutro livro de Dino Buzzati: Os sete
mensageiros. Na contra-capa, fazia menção ao Deserto dos Tártaros como sendo a
obra mais famosa do autor. Fiquei logo curioso. Só o título desperta numerosas
possibilidades. Mas o livro não estava disponível, por isso, contentei-me com os
Sete Mensageiros que é um excelente livro de contos. Li-o com um desejo
crescente de ler o Deserto dos Tártaros.
Passei vários meses à sua procura nas diferentes livrarias e
não o encontrava, até que por fim, apanhei-o numa edição da Europa-América com
a capa do filme e fiquei desta forma a saber que o livro foi adaptado ao cinema
há uns anitos largos atrás.
Confesso que não é a melhor das capas nem a edição que
pretendia (queria a edição da cavalo de ferro) mas a vontade de o ler era tão
grande que não quis adiar mais. Passados alguns dias descubro noutras livrarias
as edições da Marcador e da Cavalo de Ferro à venda. É sempre assim, quando
queremos algo nunca há, quando já temos aparecem aos pacotes e em várias
versões e edições e todas com melhor aspecto.
Mas tudo isso não passa de ruído que fica lá fora. Estava
finalmente a sós com a minha edição do Deserto dos Tártaros. Não sabia nada
acerca do seu conteúdo. Apenas sabia que tinha 200 páginas e trinta capítulos
de mistério à minha frente para desvendar.
Confesso que levar à partida tanta expectativa para um livro
acaba sempre por resultar em desilusão ou frustração, por isso, desliguei a
minha imaginação galopante e mergulhei naquelas páginas disposto a aceitar
aquilo que o autor tinha para partilhar.
E o que tinha para partilhar ainda hoje permanece comigo,
após vários livros depois de o ter lido.
Este livro é acima de tudo uma metáfora escrita; o que lemos
tem várias camadas de informação, a fortaleza pode não ser apenas uma fortaleza
assim como os inimigos do norte. Tudo ali pode ter um significado duplo e isso
agrada-me bastante, pois a história não é apenas sobre o jovem oficial que é
destacado para uma fortaleza no fim do mundo, é também sobre cada um de nós:
seres humanos.
Para além disso, a história é descrita num constante sentimento
de tensão quase onírica, a tocar ao de leve o pesadelo. Não um pesadelo de
monstros e sustos, mas daqueles pesadelos em que nos sentimos encurralados e
impotentes que por mais que tentemos escapar, não conseguimos. Um pouco como
nas obras de Kafka.
Mas não quero adiantar muito mais, pois iria estragar a
leitura. Se me dissessem sobre o que era antes de ter começado, provavelmente,
não o iria ler, pois o que o livro ensina já todos nós sabemos, mesmo que
instintivamente, até mesmo a personagem do livro o sabia, contudo, isso não o
ajudou. E felizmente existem personagens como esta para tropeçarem por nós e
nos mostrarem como é o caminho mais à frente, dando-nos tempo de nos redimir e mudar
de rumo. E isto é um excelente exemplo do que a Boa Literatura pode fazer pela
nossa evolução como seres humanos.
Concluindo, é um bom clássico que merece ser lido por
todos.
Em 5, dou-lhe umas brilhantes 4 estrelas.