A lenda diz que Fausto vendeu a alma ao Diabo em troca de
conhecimento ilimitado. Nesta brilhante subversão do mito faustiano por Michael
Swanwick, Fausto está em guerra com Deus por ocultar dos humanos o sentido da
vida, e deixa-se tentar pelo demónio sedutor que lhe oferece os segredos do voo
e do cosmos, os princípios da economia e engenharia, os mistérios da medicina e
do átomo.
Assim se inicia a transição de Fausto de louco a salvador, ao acelerar o progresso humano e precipitar uma nova era de mecanização centenas de anos antes do seu tempo. Mas é então que surge Margaret Reinhardt, e o amor monta uma armadilha a Fausto. Conseguirá o seu amor por Margaret sobreviver incólume à brutalidade e ganância de um mundo que caminha rapidamente para o caos… ou algo pior?
Assim se inicia a transição de Fausto de louco a salvador, ao acelerar o progresso humano e precipitar uma nova era de mecanização centenas de anos antes do seu tempo. Mas é então que surge Margaret Reinhardt, e o amor monta uma armadilha a Fausto. Conseguirá o seu amor por Margaret sobreviver incólume à brutalidade e ganância de um mundo que caminha rapidamente para o caos… ou algo pior?
Um pouco de
história….
O Dr. Fausto é uma personagem que virou
lenda no mundo literário. Desde há muitos séculos que tem vindo a povoar as
páginas de vários escritores. “Pensa-se”
que ele terá “nascido” na Alemanha, mais precisamente em Würtemberg, entre 1480 e 1500 e que depois de
anos de vida errante terá morrido em Breisgau.
Já muito se falava
sobre Fausto, quando em 1587, Johann Spiess, escreveu a primeira narrativa
sobre a sua vida “Historia von dr. Johann Fausten”. Num volume de 227 páginas o escritor
apresentava ao mundo o homem que vendia a alma ao Diabo em troca de bens
terrestres e da vivência de extraordinárias aventuras.
Pouco tempo depois, Christopher
Marlowe, escritor e dramaturgo
inglês, apresenta Fausto numa peça de teatro “A Trágica
História do Dr. Fausto”, onde tenta, segundo alguns comentadores, retractar
o novo espirito do homem da época, dividido entre a religiosidade medieval e o
humanismo renascentista.
Fausto surge como o
homem cansado da obscuridade cientifica da época medieval, e quando encontra
Mefistófeles, o demónio, não hesita em assinar um pacto com ele. Neste, Fausto
está disposto a trocar a sua alma pelos desejos e conhecimento. Mefistófeles
não entende a mente humana, mas aceita devolver-lhe a juventude, o conhecimento
e mesmo o amor através da doce Gretchen.
No entanto foi pelas
palavras de Goethe que a tragédia de Fausto ficou internacionalmente conhecida.
Este escritor dedicou-lhe grande parte da sua vida, mas só algum tempo após a
sua morte é que o esboço “Urfaust” foi
publicado, mais precisamente em 1887.
A lenda sobre a sua
vida e o seu pacto demoníaco terá inspirado várias gerações, atingindo o seu
auge no período romântico.
Muitos escritores
perceberam que Fausto era um manancial para explorar temas mais profundos e
filosóficos da literatura e muitos escreveram sobre os seus dilemas imateriais.
Não vou aqui debruçar-me sobre todos
eles, apenas destaco “Doktor Faustus” de Thomas Mann, publicado em 1947, em que o autor centra a sua obra
sobre a discórdia do espírito, da mente e da vida real,
Opinião…
Pois bem, já me
alonguei um pouco, mas achei curioso partilhar convosco este pequeno texto
histórico - Fausto através dos tempos. Mais do que uma mera personagem de uma
lenda alemã ele encarnou durante cinco séculos as dúvidas existenciais do ser
humano, o bem e o mal, o valor do
divino, a busca da verdade que existe desde os princípios dos tempos.
Michael Swanwick, rendido à personagem, presenteia-nos com
um Fausto insatisfeito, que logo de início se questiona sobre o conhecimento
que almejara e que de momento nada significa, não o convence. Queima praticamente
todos os seus livros, sendo salvo pelo seu fiel discípulo Wagner, é considerado
como louco pelos seus conterrâneos e durante um ataque de febre que o deixa
completamente inconsciente, ele recebe a ajuda que tanto almejara.
Alguém oferece-lhe uma visão inesquecível sobre o universo e
um inesgotável conhecimento. Finalmente a alma sedenta de Fausto encontra um
reflexo naqueles seres que o abordam, aceitando um pacto com eles. No entanto,
em qualquer pacto há sempre o outro lado e quando questionados sobre o que
pretendem em troca, é-lhe mostrada uma visão horrenda do fim da humanidade, da destruição da raça
humana provocada pelo próprio ser humano.
O conhecimento que lhe vai sendo transmitido, tem um
propósito bem definido, é que este seja aplicado no desenvolvimento massivo de
armamento, de material bélico, que possa conduzir ao fim desejado por aqueles
que visitam Fausto, a destruição da raça humana, raça insignificante perante a
vastidão do Universo.
Ao despertar da sua doença, Fausto começa uma nova vida, e
como prometido é-lhe transmitido o conhecimento que lhe permite desenvolver
novas teorias e conceitos da física e da matemática, inovando a tecnologia e
provocando uma verdadeira revolução industrial em pleno século XV.
Desde sempre as dúvidas existenciais contrabalançam com a
sede de conhecimento. Quem ganhará esta luta interna de Fausto? Não vos vou
dizer como é óbvio….
Muito bem escrito, Swanwick leva-nos através do tempo, pela
Europa fustigada de crenças religiosas e castradoras. Numa linguagem clara, muito longe, na minha
opinião é claro, dos outros Faustos literários que foram surgindo, o autor foca
de igual forma as questões de bem e do mal.
Até onde a crença no divino atrofia o desenvolvimento científico,
ou mesmo nos responsabiliza pelas andanças dos demónios interiores?
As personagens estão bem desenvolvidas, sendo que todo o
livro desenvolve-se à volta de Fausto, Wagner e o inseparável Mefistófeles. Margaret ganha um papel de destaque para o
final, revelando uma verdadeira lutadora pela emancipação feminina.
Apenas quero referir
que uma verdadeira revolução industrial e tecnológica em pleno século XV conduziria
a situações ( a meu ver é claro) verdadeiramente
catastróficas. O autor apresenta com muita ligeireza esta situação, a própria
igreja tem um papel muito passivo, e este é para mim o ponto menos conseguido
na obra.











